Portátil ao colo, no sofá, com o site a ganhar forma no Claude
O sofá, o portátil, e o site a ganhar forma nesse sábado.

Acabei por ir dormir às quatro da manhã. Melhor dizendo, fui obrigado. Foi a pior noite de sono que tive em meses, e uma das melhores decisões que tomei este ano.

Uso inteligência artificial desde que o ChatGPT apareceu. Tenho conta paga no ChatGPT e no Grok e uso-os regularmente para me ajudar a arrancar textos, propostas, memorandos, pareceres e outros documentos.

Sempre os vi como ferramentas úteis, mas nunca transformacionais. Facilitavam o trabalho, justificavam o custo, mas obrigavam sempre a confirmar, rever e voltar a rever. Nunca tinham mudado verdadeiramente a minha forma de trabalhar.

Na semana passada estive com o Bruno Carlos, amigo, sócio e um verdadeiro brother from another mother. Há muito que me fala da revolução que a inteligência artificial vai provocar. Eu ouvia-o, lia artigos e acompanhava a evolução do tema por curiosidade, mas continuava convencido de que estava apenas perante mais uma melhoria incremental.

Nessa conversa voltámos ao tema da inteligência artificial e, em particular, do Claude. Desta vez não me limitei a ouvir: decidi testar. Por volta das nove da noite descarreguei a aplicação.

Com os miúdos de férias, a casa estava cheia de sobrinhos, barulho e confusão. Deitei-me perto da meia-noite e disse para mim próprio que ia experimentar durante uns minutos.

Foi como jogar Civilization. Sempre "só mais um turno". Quando dei por mim eram quatro da manhã. A cabeça estava a mil, cheia de ideias, precisamente quando a versão gratuita decidiu lembrar-me de que tinha esgotado os tokens.

Fiquei genuinamente irritado. Não porque tivesse sono. Pelo contrário. Se os tokens não tivessem acabado, provavelmente teria continuado mais umas horas. Mas não havia alternativa. Fui obrigado a ir dormir.

Às oito já estava de pé, telefone na mão. Horas depois voltei a bater exactamente no mesmo limite. Percebi que já tinha tomado a decisão. Nessa noite, enquanto estava no Colombo com o meu filho mais novo, assinei a versão Pro.

Depois de experimentar alguns projectos de escrita, quis perceber até onde aquela ferramenta conseguia levar-me sem que eu escrevesse uma única linha de código.

Escolhi um projecto que estava parado há anos: este site. Pensei nele pela primeira vez no final da pandemia. Nunca houve tempo. Nunca foi prioridade. Ficou estacionado durante quase quatro anos.

No sábado nem sequer saí de casa. Ainda estou de pijama enquanto escrevo isto. Montei o conceito, comprei os domínios, construí o site, fiz mais de quarenta iterações, escrevi o primeiro artigo, escrevi este segundo, comprei o alojamento e publiquei tudo.

Tudo numa manhã. Sem escrever uma única linha de código. Apenas com ideias, pedidos, revisões e muitas conversas.

Quando publiquei o site lembrei-me imediatamente de Cape Town e do meu irmão mais velho, Luís Miguel.

Em 1998, decidiu criar o primeiro site do canal #Angola no mIRC, que era então o principal ponto de encontro da diáspora angolana na Internet. Muito antes de existirem WhatsApp, Facebook ou redes sociais, era ali que se faziam amizades, começavam namoros, nasciam rivalidades e se organizavam encontros.

O seu nick era Mo_Mike. Comprou um livro de HTML e aprendeu sozinho. Escreveu o site inteiro à mão, linha após linha, enquanto descobria a linguagem. Pelo caminho enfrentou o Windows 95, o Internet Explorer e os inevitáveis Ecrãs Azuis da Morte. Levou perto de seis meses até terminar.

Hoje, numa manhã, sem escrever uma única linha de código, fiz o equivalente.

Não porque trabalhe mais depressa. Porque as ferramentas mudaram.

Daqui a poucos anos ninguém vai discutir se, em 2026, o Claude era melhor do que o ChatGPT, o Grok ou qualquer outro modelo. Essas comparações envelhecem depressa. Suspeito que esta seja apenas a primeira mudança. A mais profunda ainda está para chegar.

Quando isso acontecer, a vantagem já não estará em usar inteligência artificial. Estará em quem aprendeu primeiro a trabalhar com ela.

Nunca uma ferramenta mudou tão rapidamente a minha forma de trabalhar.