Ricardo Almeida e o irmão mais velho, Luís Miguel, início dos anos 90
Eu (à direita) e o meu irmão mais velho, Luís Miguel.

No início dos anos 90 vi, numa cassete VHS alugada no videoclube Big One, um filme que não tinha nada a ver com negócios. Em Angola os filmes demoravam sempre a chegar. Field of Dreams, com o Kevin Costner, é sobre um agricultor que ouve uma voz a dizer-lhe para construir um campo de basebol no meio do milho. Ficou-me uma frase, sem eu perceber bem porquê: "If you build it, they will come." Se construíres, eles virão.

Não sabia na altura que essa frase se ia tornar o meu método de trabalho. Uns anos antes, tinha ajudado o meu irmão mais velho a fazer um pequeno programa em BASIC no ZX Spectrum, só para animar o logótipo da fábrica de confecções do meu pai, a Only Industrial Angolana.

Era simples: consistia em desenhar a palavra "Onli", com um I no final, que depois se transformava em Y, formando "Only" e simulando a abertura de um fecho de calças (zipper).

Foi apresentado na FILDA, no ano em que a empresa ganhou o Leão de Ouro. Ninguém nos tinha pedido aquele programa. Construímos primeiro, e só depois percebemos para que servia.

Desde que me lembro que adoro construir. Primeiro com playmobil, depois com Lego a sério. No início da adolescência fiquei obcecado com a ideia de construir um carro indestrutível. Montava o carro, atirava-o da mesa abaixo, estudava o padrão de destruição e voltava a montá-lo, vezes e vezes sem conta. Na verdade, não era o carro que me interessava, era o próprio processo de construir. Muito antes de ver aquele filme, essa ideia já se ia gravando em mim: if you build it, they will come.

Ao longo dos anos percebi que fazia sempre a mesma coisa: construía primeiro, e só depois descobria quem precisava daquilo.

Em 2010, quando fundei a 3GS, a maior parte dos sistemas críticos do Estado angolano estava entregue a empresas estrangeiras. Podia ter passado meses a tentar convencer alguém de que uma empresa angolana conseguia fazer o mesmo trabalho. Em vez disso, começámos por construir.

O primeiro projecto foi o sistema de gestão documental do gabinete do chefe da Casa Civil da Presidência da República, um trabalho sensível, sem grande visibilidade, mas que provou que sabíamos fazer. Os contratos maiores vieram depois: sistemas de licenciamento, o comércio externo, o Banco Nacional de Angola. Nenhum deles teria acontecido se eu tivesse começado por uma apresentação sobre soberania digital.

O mesmo aconteceu dez anos depois, numa área que não tinha nada a ver com software. Em 2020 comprámos a nossa primeira impressora 3D de construção sem saber que as impressoras existentes no mercado só imprimiam com argamassas, um material que não se produz em Angola. Passámos mais de um ano a resolver esse problema, a trabalhar com a COBOD e a CEMEX, a testar até conseguirmos imprimir com betão feito a partir de areia, brita, água e cimento locais.

Só depois de termos uma casa construída, a primeira do mundo impressa com esta tecnologia em betão real, é que começámos a falar com clientes a sério. A casa já existia. Não era uma promessa.

Há uma tentação grande, sobretudo em tecnologia, de vender primeiro e construir depois, ou nunca. Prometer uma coisa que ainda não existe, levantar dinheiro ou clientes com base numa ideia, e só depois descobrir se funciona. Prefiro o caminho mais lento: construir uma coisa que funcione, mesmo que ninguém esteja a ver, e deixar que o próprio trabalho fale por si. Resultou com um programa de computador que ninguém pediu, e continua a resultar décadas depois, com empresas que já empregam dezenas de pessoas.

Se um dia construir a fundação que ainda tenho na cabeça, farei exactamente como sempre fiz. Não começarei por pedir atenção. Começarei por construir. O resto nunca dependeu de mim.